Um (brevíssimo) histórico da ressignificação da data
O dia 13 de maio é um dia de memória para o povo afro-brasileiro. Dizer que é dia de memória, ao contrário do que pode parecer, não significa simplesmente que é um dia importante que ficou no passado. A memória, seja a nossa individual ou a memória social, é um campo de disputas e ressignificações feitas a partir do presente. A estratégia da ressignificação, por sinal, tem sido muito usada pelos movimentos sociais ao longo da história: os oprimidos se apropriam de palavras utilizadas para subjugá-los e transformam seu significado. Foi assim que o movimento cultural da negritudetransformou o termo “negro” em uma palavra de orgulho. É também assim que o termo “vadia“, ainda altamente pejorativo, tem sido usado como arma de movimentos de mulheres contra a opressão machista e a cultura do estupro.
O processo da abolição da escravidão no Brasil (último país independente das Américas a executá-la), assim como tantos outros processos históricos no nosso país, foi marcado por contradições. Mas a narrativa histórica clássica da libertação dos escravos pela benevolente Princesa Isabel foi amplamente contestada pelo movimento negro brasileiro — mais intensamente a partir dos anos 70 pra cá. A ressignificação, nesse caso, foi uma inversão de sujeito e objeto: Não foi o sujeito “Princesa Isabel” que executou a ação “assinar” o objeto “lei Áurea”, mas o sujeito “Escravos e negros brasileiros” que executou a ação “conquistar” o objeto “liberdade”. Essa mudança pode parecer bastante óbvia pra alguns, mas não é tão consensual assim. Como exemplo, podemos fazer um paralelo, novamente utilizando o gramatiquês, com uma argumentação tosca e mesquinha, mas bastante propagada, contra as cotas raciais. Ela nega que o sujeito “Negro” executou a ação de “conquistar” o objeto “vaga na universidade/cargo público”, alegando que o sujeito “Governo” executou o verbo “dar” o objeto “esmola indevida”.
A transformação do sentido do fim da escravidão no Brasil, de concessão real à conquista popular, fez com que o 13 de maio tenha se transformado em um dia de luta. A nova perspectiva sobre a memória da abolição negou a festa da liberdade e revindicou a denúncia da opressão racista que persiste na atualidade e de uma abolição que, concretamente, nunca se realizou por completo. Nos anos que precederam o centenário da abolição, em 1988, diversas entidades do movimento negro organizaram marchas intituladas ”Cem Anos Sem Abolição” em protesto à proposta do governo federal em realizar uma série de eventos para celebrar a data. Em contrapartida, a luta anti-racista no Brasil abraçou o 20 de novembro, tido como a data de morte de Zumbi dos Palmares, como um dia mais apropriado para celebrações — e também, sempre, para reivindicação e luta política.
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